Você estaria aberta a uma vida diferente?

Minha série preferida voltou com a sua última temporada. Insecure, da HBO. Você já assistiu?

Se ainda não, vou tentar não trazer muitos spoilers. Se sim, mas não chegou na última temporada ainda, também vou tentar não trazer muitos spoilers.

Insecure conta a história de duas amigas negras e norte-americanas, Issa e Molly, que estão buscando construir as suas próprias histórias no amor, na carreira e nas amizades.

Aquelas dores e alegrias da vida adulta são trazidas com humor e leveza pela série, assim como, assuntos mais difíceis como a desigualdade de salário entre homens e mulheres e as opressões raciais.


Ah, as dores e alegrias da vida adulta!

Fiquei pensando em como elas aparecem no consultório. Tenho percebido que a vida adulta tem chegado nas sessões de terapia com muitas expectativas. Umas possíveis, outras nem tanto.

Por vezes recebo mulheres sentindo que estão vivendo “errado” suas vidas adultas. “Eu poderia estar fazendo mais”, “Já era para eu ter conquistado mais coisas”, “Parece que está tudo dando certo para todo mundo, menos para mim”.

Você já se sentiu desta forma também? Já pensou algo parecido?

Este também é um questionamento de Issa e Molly nessa temporada. Onde elas revisitam a faculdade onde estudaram e tem a oportunidade de reviver alguns momentos do passado, se comparar com os antigos colegas de classe e pensar: “Eu conquistei tudo aquilo que ‘deveria’?”

Por vezes temos a oportunidade de revisitar as nossas versões antigas e avaliarmos se estamos construindo aquilo que gostaríamos para gente. E nem sempre é fácil nos depararmos com as frustrações de nossas expectativas, quando chegamos a vida adulta.

Issa foi além na sua reflexão e se deparou com a sua versão mais nova e cheia de expectativas:

Nesta cena Issa se depara com sua versão da faculdade, mas as nossas expectativas são construídas muito antes deste momento, começando lá na infância:

“[…] as pessoas mais próximas vão desenvolvendo um projeto para a criança, através de suas expectativas, por exemplo, como ela deve se comportar, do que deve gostar e que papel deve desempenhar no grupo familiar. Apesar da criança não dispor de uma capacidade reflexiva, as pessoas que a cercam acabam lhe conferindo uma identidade” (Vieira Junior; Ardans-Bonifacino; Roso, p.125 apud Schneider & Castro, 1994).

Enquanto somos crianças, são os adultos que nos emprestam seus olhares e compreensões sobre o mundo. E a medida que vamos crescendo vamos buscando nossa própria visão sobre quem queremos ser.

Neste momento, a criança estabelece apenas relações espontâneas com o ambiente que a cerca, e, mesmo que venha a apresentar atitudes de contestação ou insubordinação, ela ainda não vivencia o seu ser. Assim, são as pessoas próximas que afirmam uma verdade sobre o ser da criança, e ela se apropria disso como se fosse sua única possibilidade de mundo, vivenciando seu ser no sentido de um dever ser” (Vieira Junior; Ardans-Bonifacino; Roso, p.125 apud Schneider & Castro, 1994).


A nossa versão criança que continua conosco

No entanto, não é incomum, sentirmos que precisamos dar conta das expectativas das pessoas próximas, mesmo na vida adulta. Nossos familiares, amigos, parceiros, chefes, clientes e a nossa sociedade, têm uma visão sobre quem somos e sobre o que deveríamos ser ou fazer.

É possível que para algumas pessoas estejamos fazendo tudo muito bem, já para outras nem tanto assim.

“Quando o olhar do outro está em harmonia com minhas expectativas não há conflito, mas quando isso não acontece, ele configura para mim um espelho crítico que aponta minhas falhas e mentiras” (Oliveira, 2008, p.8).


Sobre não precisarmos ser a nossa versão de sempre

No entanto, é também nas relações que estabelecemos com as outras pessoas que desenvolvemos as nossas próprias saídas, construimos nossa história, ou melhor, novas histórias, novas perspectivas e expectativas mais possíveis.

A Issa da faculdade vivia em um contexto diferente da Issa adulta, que está tentando criar seu caminho no amor e na carreira. Provavelmente o que é certo e errado, bonito e feio, adequado e inadequado, pode ter um outro significado para Issa de agora.

Nós mudamos, a vida nos atravessa, as relações nos atravessam, e mesmo elegendo algumas características de outras versões nossas, ainda assim podemos escolher novas formas de viver e nos posicionar no mundo.

Na segunda temporada de Insecure, a terapeuta de Molly, a melhor amiga de Issa, faz uma pergunta que talvez seja interessante para refletirmos aqui e em outros momentos:

“Se os seus ‘deverias’ não se concretizassem, você estaria aberto para a sua vida com uma aparência diferente?”

Você estaria?

Bom, vou parar por aqui na nossa reflexão de hoje. E espero que tenha sido interesante para você de alguma maneira.

Encontrei este texto no Medium, sobre as sessões de terapia da Molly e achei que tem tudo a ver com que falamos hoje, talvez seja interessante, para você refletir também. Ele está inglês e se você não estiver familiarizada com a língua, é possível traduzir pelo próprio navegador. Clique aqui para acessar

Um abraço e ótima semana!


Referências utilizadas para pensar a nossa conversa de hoje:

OLIVEIRA, C. M. C. (2008). A psicanálise existencial de Jean-Paul Sartre na peça “Entre Quatro Paredes”: O jogo de espelhos no encontro com o Outro. In Anais do I Simpósio de Psicologia Fenomenológico-Existencial (p. 19). Belo Horizonte, MG. [ Links ]

VIEIRA JUNIOR, Cezar Augusto; ARDANS-BONIFACINO, Hector Omar; ROSO, Adriane. A construção do sujeito na perspectiva de Jean-Paul Sartre. Rev. Subj., Fortaleza , v. 16, n. 1, p. 119-130, abr. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2359-07692016000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 07 nov. 2021. http://dx.doi.org/10.5020/23590777.16.1.119-130.

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